Artigo

A angústia no livro de Eclesiastes

Ailton Gonçalves Desidério

Uma pergunta muito comum entre aqueles que já leram o livro de Eclesiastes é: como pode uma pessoa que crê em Deus ter escrito um texto tão amargo, marcado por desilusão e, em muitos momentos, por um profundo sentimento de desencanto com a vida? Já ouvi alguns crentes dizendo: “Ler Eclesiastes não anima quem está precisando de ânimo; parece que joga ainda mais para baixo”. 

 

De fato, para quem está impregnado pela cultura do happiness — da felicidade plena no aqui e no agora — ou pelo chamado “evangelho coach”, que promete que, se a fé for usada da maneira certa, ela funciona como uma espécie de varinha mágica, fazendo com que tudo na vida seja “só vitória”; o livro de Eclesiastes soa como um choque de realidade. Mas, no meu entendimento, a mensagem central do livro de Eclesiastes é mostrar que “debaixo do sol” a vida é limitada e fugaz.  

 

Quando o autor de Eclesiastes — o Pregador, tradicionalmente associado a Salomão — escreveu esse livro, ele já é um idoso. E, como muitos que chegam a essa fase da vida, olha para trás e passa a analisar o que fez e o que deixou de fazer, o que foi bom e o que foi ruim, o que fez sentido e o que não fez. É dentro desse contexto que ele declara: “Vaidade de vaidades! Tudo é vaidade”. 

 

O entendimento superficial dessa afirmação costuma reduzir o texto a uma advertência moral contra a vaidade. É isso? Sim e não. Sim, porque uma vida movida pela busca de reconhecimento — ainda que admirada por outros, como foi a de Salomão — é vazia de sentido. Viver de aparências, mendigando aprovação, elogio e aceitação, é pagar um preço muito alto por algo de pouco ou nenhum valor. Mas quantas vezes almejamos cargos, funções ou posições — inclusive no contexto eclesiástico — apenas para sermos vistos? Essa dinâmica revela o quanto a alma pode se perder em busca de validação.  

 

Por outro lado, como o próprio Salomão deixa claro, pautar a vida no acúmulo de riquezas e na satisfação desenfreada dos prazeres é pura vaidade. A questão aqui não está no valor ou na legitimidade dessas coisas, mas no excesso. Qual o problema em querer crescer e melhorar de vida? Nenhum. Desde que esse não seja o grande objetivo da vida. Qual o problema em relação a satisfação sexual? Também, nenhum. Desde que, como bem disse o próprio Salomão no livro de Provérbios, desfrutemos deste prazer, alegrando o nosso coração, com a mulher da nossa mocidade (Provérbios 5:19). A questão, portanto, está no excesso. É disso que Salomão trata: uma vida “debaixo do sol” marcada pelo exagero, pelo excesso.  

 

Para Salomão, a vaidade não é um mero comportamento a ser evitado moralmente, mas uma característica da própria existência humana. Mas qual o sentido dado a palavra vaidade no livro de Eclesiastes? A palavra hebraica usada por Salomão é “hevel”, que significa vapor, sopro, névoa — algo que aparece por um instante e logo desaparece. Nesse sentido, quando Tiago afirma que a vida é como um vapor (Tg 4:14), ele ecoa o mesmo pensamento: a vida é breve, fugaz, escapa por entre os dedos. A vida é vaidade.  

 

Vida, vapor, vaidade, temporalidade. É nesse cenário que surge o conceito de angústia, enquanto um sentimento que ao mesmo tempo que sinaliza a fragilidade da vida, também, quando não reconhecido, busca suplantar essa fragilidade a partir de ações totalmente equivocadas e inúteis. Salomão não compreendeu a angústia como um sentimento natural da vida, por isso tentou suplantá-la, silenciá-la, por meio da tríade: sexo, dinheiro e poder. Não é exatamente isso que vemos ainda hoje?   

 

Quando a angústia — esse sentimento natural que denuncia a fragilidade da vida “debaixo do sol” — é ignorada, o que emerge é o desespero. No livro O Desespero Humano, Kierkegaard afirma que o homem desesperado se perde construindo castelos no ar e lutando contra moinhos de vento. Nesse ponto, Salomão se aproxima do universo de Dom Quixote, personagem criado por Miguel de Cervantes. Como o cavaleiro, Salomão viveu boa parte de sua trajetória de forma delirante, grandiosa e extravagante, lutando contra uma angústia que não soube nomear — tentando vencê-la por meio de excessos.  

 

A angústia é um sentimento natural diante da vaidade, da fugacidade da vida. Ela surge como sinal da nossa condição humana. Se por um lado a angústia denuncia a nossa incompletude, por outro, ela aponta para um anseio de eternidade, do que está acima do sol, que cada um traz dentro de si. A angústia é um anelo pela eternidade, enquanto símbolo de perfeita paz e harmonia. Biblicamente falando, quando estivermos na presença de Deus, o vazio, a vaidade e a angústia deixarão de existir, pois nesta nova realidade espiritual tudo encontrará sentido pleno e definitivo.  

 

No entanto, enquanto aqui estivermos, não podemos ignorar a angústia como uma sinalização de quem nós somos: seres humanos (Gênesis 1.27). Negar essa realidade é cair na mesma armadilha de Salomão, que tentou preencher com bens, fama e prazeres o vazio que marca a existência “debaixo do sol”. Precisamos compreender que a fé em Deus não nos foi dada para negar a realidade, mas para nos ajudar a enfrentá-la. É por meio da fé que abrimos o coração para a graça de Deus, e é através da Graça de Deus que somos salvos e sustentados (Efésios 2.8). É a Graça de Deus que nos confere força nos nossos momentos de fraqueza (II Coríntios 12).  

 

O que o livro de Eclesiastes nos ensina é que a angústia é um sentimento natural para todos nós que vivemos debaixo do sol, e que não adianta tentar suprimi-la por meio de bens, conquistas ou prazeres passageiros. Ela não é um inimigo a ser eliminado, mas um sinal a ser compreendido. Diante disso, três caminhos práticos se apresentam. 

 

Primeiro, precisamos aprender a reconhecer a angústia sem culpa, entendendo que ela faz parte da nossa condição humana e pode nos conduzir a uma dependência mais sincera de Deus.  

 

Segundo, devemos resistir à tentação de anestesiá-la com distrações, consumismo, busca por aprovação ou até mesmo com uma expressão de fé superficial. Precisamos buscar em Deus a Graça para cultivarmos uma vida simples, consciente e orientada por valores eternos.  

 

Por fim, quando a angústia apertar o coração a ponto de parecer que ele vai explodir, em vez de buscarmos escapes e alimentar a alma com falsas ilusões, devemos buscar a presença de Deus, colocando diante Dele tudo o que nos aflige. Em certa medida, foi exatamente isso que Salomão fez ao escrever Eclesiastes: ele expôs, sem máscaras, a realidade do seu próprio coração diante de Deus.